Mãos que fazem história
publicado em 05/04/2010 - 23:08 por Maísa Vasconcelos
Quando vejo trabalhos como o que foi feito pela equipe do caderno EVA, do Diário do Nordeste, fico cheia de orgulho. Daqueles bons, que alimentam esperanças. Parabéns pela sensibilidade! Mais que isso: parabéns pela iniciativa, que é mais um reconhecimento da riqueza que se esconde nos recantos mais distantes desse nosso Ceará. A série de reportagens “Mãos que Fazem História” é exatamente isso.
Durante dois meses, as jornalistas Germana Cabral e Cristina Pioner, juntamente com as fotógrafas Patricia Araújo e Marília Camelo cruzaram o estado de uma ponta a outra em busca de histórias vividas por mulheres artesãs. Conheceram 243 delas. Mulheres de todas as idades. Mãos, e cabeças, que moldam suas vidas e a de filhos e maridos e comunidades inteiras. Fazem arte. Tecem a cultura do nosso povo.
Convidamos Germana e Cristina para contarem um pouco do resultado dessa aventura fantástica, mais parecida com uma missão. As moças, acostumadas à redação não às câmeras, ensaiaram um nervosismo, mas ficaram mesmo foi emocionadas ao relatar a importância da experiência que tiveram. Lágrimas nos olhos da Germana puxaram lágrimas nos olhos da gaúcha, a Cristina. Há 15 anos ela escolheu essa terra pra viver, e agora age como o estrangeiro que se apaixona pelo lugar e empunha armas para protegê-lo. O texto é sua arma.
E chamamos também Dona Neci, nascida Raimunda Vicente da Costa, há 73 anos. Desde os sete ela tece a renda na almofada de bilro. O ofício aprendeu da mãe, que também aprendeu da mãe, e nem se sabe quem foi a primeira rendeira na família de mulheres esposas de pescadores.
Durante toda a conversa, Dona Neci ficou a adiantar o serviço no caminho de mesa cheio de cores. São 15 dias para confeccionar apenas aquela peça. Vai vender por R$ 35,00. Isso se tiver turista pra comprar. Ela mesma não guarda uma única peça em casa. Perguntei se é por não dar valor e ela disse que só se “sobrar” é que fica, pra não “istruir”. Hoje Dona Neci é a presidente da Associação das Rendeiras do Iguape, praia do município de Aquiraz. Mesmo admitindo que já não se faz dinheiro com a renda, todo santo dia está lá num dos boxes do Centro das Rendeiras.
Fico pensando até quando a renda do Iguape, e o barro do Limoeiro e do Juazeiro, e todo o artesanato feito por essas mulheres, vai resistir. Talvez enquanto houver mãos verdadeiras, mãos dispostas a relatar o que vêem olhos bem abertos. Apenas estes estão prontos para enxergar os verdadeiros tesouros: os que surgem das mãos mais habilidosas.
Categoria: Atrações, Comportamento






